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Associação dos Geógrafos Brasileiros toma posição sobre a construção da usina hidroelétrica de Belo Monte...

Olá pessoal...

Com o novo código florestal aprovado, as discussões em torno das depravações ambientais cometidas nas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ficaram em segundo plano.
Não custa relembrar, por exemplo, os problemas ambientais causados pela construção da usina de Belo Monte na bacia do rio Xingu. Ao meio de muitas discussões, a construção da usina é considerada a maior obra do Governo Federal e, não apenas por isso, vem sendo alvo de críticas, debates e protestos. Em 2009 aprovou-se o EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e em 2010 o Ministério do Meio Ambiente (MMA) concedeu a licença ambiental prévia para a construção.
No entanto, mesmo sendo ‘empurrada’ a força pelo governo às populações ribeirinhas e as comunidades indígenas, não se observa o debate sobre o assunto na mídia. Principalmente quando estamos nos referindo aos possíveis problemas ambientais gerados. Segundo especialistas, com a construção da usina de Belo Monte, as Inundações serão constantes nos igarapés de Altamira (onde hoje as inundações são zonais); haverá redução da vazão da água e bloqueio do transporte fluvial até o Rio Bacajá; remanejamento de famílias locais sem prover a tais uma infra-estrutura básica de sobrevivência no local do remanejamento e, por fim, provavelmente, ocorrerá alteração do regime do rio relacionado aos meios bióticos e socioeconômicos. Porque não vemos falar destes grandes problemas causados pela obra? Talvez porque o governo não permite! Ou talvez porque eles não me afetam! Já disse isso em outras postagens e acho importante reforçar: quando estamos falando em meio ambiente, precisamos deixar de lado o pensamento subjetivo/egoísta e pensar no bem estar social/econômico de todos. Somente assim, coma participação da sociedade civil, as questões relativas ao nosso bem estar (inclusive e principalmente ligadas ao meio ambiente) serão conhecidas, discutidas e resolvidas.
Ainda existem outras informações que são de relevância neste assunto. Com isso, visando esclarecer a população e reforçar o seu posicionamento a AGB (Associação dos Geógrafos Brasileiros), em seu site oficial, lançou um comunicado a respeito desta grande obra. Este comunicado, reproduzido abaixo, nos ajuda a pensar, ainda mais, sobre isso. Observem...


POSIÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS EM RELAÇÃO À USINA HIDROELÉTRICA DE BELO MONTE.

 A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) manifesta seu apoio aos povos indígenas e ribeirinhos da Amazônia brasileira que estão mobilizados contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
A AGB se alinha a todos os que são contrários à construção desta usina pelos impactos que a mesma produzirá na ecologia regional, assim como pela desestruturação do modo de vida das populações que vivem no entorno da usina.
As inúmeras evidências dos danos ambientais e sociais gerados pela construção de grandes hidrelétricas na Amazônia, como são os casos de Tucuruí e Balbina, são mais do que suficientes para fazer com que a sociedade civil brasileira se oponha a mais esta obra faraônica proposta pelo governo brasileiro em associação com grandes empreiteiras e que se destina, sobretudo, a sustentar a demanda de energia de projetos industriais e de extração mineral e que nenhum benefício trará para os habitantes do entorno da usina, a exemplo do que ocorre em Tucuruí e Balbina, onde povoados situados a poucos quilômetros das usinas não dispõem de energia elétrica.
Também apoiamos a manifestação recente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) que solicitou oficialmente que o governo brasileiro suspenda imediatamente o processo de licenciamento e construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, no Pará, citando o potencial prejuízo da construção da obra aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu. A decisão da CIDH/OEA -que é uma resposta à denúncia encaminhada em novembro de 2010 em nome de várias comunidades tradicionais da bacia do Xingu pelo Movimento Xingu Vivo Para Sempre (MXVPS), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Prelazia do Xingu, Conselho Indígena Missionário (Cimi), Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), Justiça Global e Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (AIDA) - vem em boa hora para reforçar a luta dos povos amazônicos e dos segmentos da sociedade brasileira que não aceitam que o direito à vida e a natureza sejam subordinados aos interesses do capital.
Nesse sentido, lamentamos as tentativas do governo brasileiro de desqualificar a resolução CIDH/OEA, uma vez que a mesma está respaldada na Convenção Americana de Direitos Humanos, na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Declaração da ONU sobre Direitos Indígenas, na Convenção sobre Biodiversidade (CBD) e na própria Constituição Federal brasileira (Artigo 231).
Por tudo isso, conclamamos a comunidade geográfica a se juntar à luta contra a construção da Usina de Belo Monte e nos juntamos a tantas outras entidades que também já se manifestaram de forma contrária a mais essa agressão que está sendo levada a cabo pelo governo brasileiro contra a natureza e os povos amazônicos.


Por: Diretoria Executiva Nacional da AGB.
Em: 14 de Abril de 2011.
Acesso em 11 de Maio, 2011.


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O Brasil precisa da energia nuclear?

Olá pessoal...

O Acidente no Japão gera debates sobre as conseqüências do projeto de desenvolvimento energético no mundo. O Brasil não poderia ficar fora dessa discussão.
Mas, o que há por de trás dos interesses de se aumentar a matriz energética nuclear brasileira? Sabemos sobre seus riscos. Será que ela possui um baixo custo a fim de compensar esses riscos? Quem, realmente, lucra com esse tipo de energia? É uma energia considerada limpa? Haveriam outras alternativas?
Esses questionamentos são fundamentais na discussão sobre a ampliação desse tipo de energia no Brasil. E, nós brasileiros, precisamos estar atentos a eles
O artigo abaixo nos ajuda a refletir...


ENERGIA NUCLEAR: CARA, PERIGOSA E LUCRATIVA


O acidente na usina de Fukushima, no Japão, alertou o mundo sobre o potencial devastador da energia nuclear. O debate atingiu o Brasil, país que planeja investir mais nesse tipo de energia. Segundo o Plano Nacional de Desenvolvimento Energético (PNDE), estão previstas as construções de quatro usinas nucleares de 1 mil megawatts até 2030.
Porém, os próprios estados que receberiam os empreendimentos já estão receosos em relação a sua construção. Mesmo com valores que trariam investimentos de bilhões de reais e empregos, governadores já sinalizam que não pretendem abrigar usinas em seus territórios.
Até mesmo governadores da base aliada, como Eduardo Campos (PSB-PE) e Marcelo Déda (PT-SE), já afirmaram que os seus estados vão repensar a viabilidade da construção de parques nucleares.
Na Europa, a desconfiança em relação a essa matriz energética ampliou a rejeição da população à abertura de mais usinas atômicas. A situação em países como a França, que têm na energia nuclear sua maior fonte de energia, chegando a 70%, deve forçar a uma imediata substituição de matriz energética.
As inaugurações de Angra 1 e Angra 2, em 1982 e 2000, respectivamente, causaram protestos de ambientalistas e tiveram sua eficácia questionada. Os recursos hídricos, eólicos e solares do país são apontados como os principais motivos para recusar a energia atômica.
No entanto, as quatro usinas previstas no PNDE teriam 40 anos de vantagem sobre a usina de Fukushima, que hoje tem essa idade. A usina japonesa já possui equipamentos considerados obsoletos por especialistas.

Situação confortável
O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB), afirma que o Brasil possui capacidade para construir as quatro usinas, além de Angra 3, com o máximo de segurança possível.
Para Ildo Sauer, doutor em engenharia nuclear e professor da Universidade de São Paulo (USP), o desenvolvimento da energia atômica no Brasil não deve ser analisado apenas pelos eventuais riscos, mas também pelos interesses financeiros por trás dela.
“O Brasil dispõe de um potencial hidráulico, eólico e de recursos a partir da biomassa. Até 2040, 2050, quando tivermos 200 milhões de habitantes, mesmo dobrando o consumo da população, será preciso usar apenas 70% do nosso potencial hidráulico, ainda sobra energia. O Brasil está numa posição muito confortável”, afirma.
Sauer, que foi diretor de gás e energia da Petrobras no primeiro governo Lula, critica as gestões do ex-presidente e de Dilma Rousseff na área de energia. “No Brasil, o governo Lula resolveu voltar com o projeto de construir Angra 3, que deve custar R$ 8 bilhões de reais e gerar 1.345 megawatts. Essa energia poderia ser produzida pela matriz hidráulica, eólica ou de outra fonte. As usinas nucleares previstas para o entorno do rio São Francisco teriam um custo de R$ 80 bilhões, sendo que a energia que elas gerariam poderiam ser substituídas por investimentos na ordem de R$ 20 bilhões, usando outras matrizes. Do ponto de vista tecnológico, essas usinas não trariam avanços ao país”, explica.
Apesar de crítico da política nuclear do governo federal, Sauer afirma não ser contrário a essa fonte de energia e aponta que o seu uso é de suma importância na medicina diagnóstica. “Do ponto de vista cientifico - tecnológico, seria mais inteligente montar um reator que a Marinha pudesse utilizar para fazer ensaios”, sugere.
Para Sauer, o principal motivo para o Brasil manter a sua política favorável à energia atômica, mesmo depois da comoção internacional em torno de Fukushima, é o lobby das grandes empresas internacionais que pretendem lucrar com a tecnologia no país. “A política se submeteu ao lobby da indústria nuclear internacional. É uma opção por uma fonte mais cara que vai exigir cuidados elevadíssimos por 2 mil anos”, aponta.
Sauer também lembra que os equipamentos para a construção de Angra 3 já estão estocados há 20 anos e podem apresentar defasagem.

Novas fontes
Mesmo antes da tragédia japonesa, o debate central no campo da energia já era a busca da conciliação entre desenvolvimento econômico e preservação do meio ambiente. No caso da usina de Fukushima, nenhum dos dois elementos mostraram-se viáveis, diante do imenso dano ambiental e o prejuízo financeiro causado pela radiação.
Para Paulo Metri, diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, o uso de fontes limpas e renováveis deve ser feito, mas é necessário medir o impacto financeiro dessas escolhas. Segundo Metri, se a energia alternativa for mais cara do que a convencional, o produto brasileiro pode tornar-se mais caro no mercado internacional, gerando empregos com má remuneração no país. “A [energia] solar só será competitiva em preço depois de alguns desenvolvimentos tecnológicos, que eu espero que ocorram, pois será a redenção do Nordeste brasileiro, além de ser bom para o Brasil como um todo, devido ao alto grau de insolação. A eólica pode também vir a ter alguns novos desenvolvimentos. Mas já deve ser utilizada nas regiões onde houver vento, pois, nestas, ela já é competitiva”, avalia.


Por: Renato Godoy Toledo, no Brasil de Fato.
Em: 12 de Abril de 2011.
Acesso em 12 de Abril, 2011.


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Defensores da energia nuclear esqueceram Chernobil ...

Olá pessoal...

Estamos novamente diante de uma grande catástrofe causada pelo homem. As usinas em Fukushima ainda emitem gases tóxicos e, como já registrado pela mídia, essa radiação já atingiu o oceano. Dá para imaginar quando ela se dissipar por meio do “ciclo hidrológico”?
Sabemos que o Japão possui dificuldades em produzir energia devido ao tamanho de seu território. Mas, não seria o momento de revermos a maneira e as fontes de onde geramos a nossa energia? Vale a pena o risco de morte de milhares de pessoas em troca de milhares de megawatts? Valemos o equivalente a um megawatt que, hoje, custa em torno de R$ 150,00?
Precisamos aprimorar a produção energética mundial. Investir em fontes renováveis e em pesquisas que aprimorem tais. Ou, ainda melhor, precisamos começar a discutir (e não apenas isso) a redução do consumo de energia – via diminuição do consumo. Mas, estariam os ‘vendedores’ e ‘compradores’, desse sistema, dispostos a isso?
Enquanto isso não acontece, o nosso preço continua o mesmo de um megawatt ...


DEFENSORES DA ENERGIA NUCLEAR ESQUECERAM CHERNOBIL

Formadores de opinião que desprezam os riscos da radiação estão ignorando os mortos de acidentes passados. Fukushima não é Chernobil, mas é potencialmente pior. Uma catástrofe de múltiplos reatores acontecendo a 240 quilômetros de uma metrópole de 30 milhões de habitantes. Se acontecesse em Sellafield (uma das principais usinas nucleares inglesas, a 400 quilômetros de Londres), haveria pânico nas principais cidades britânicas. Ainda não sabemos o resultado final, mas ouvir de especialistas que a radioatividade não é nada sério, ou que esse acidente prova que precisamos de energia nuclear, não é nada menos de trágico. O artigo é de John Vidal.
Todos os dias mais problemas surgem na crise nuclear japonesa e fica claro que a indústria e os governos estão nos contando muito pouco; não têm ideia de quanto tempo irá levar retomar o controle; ou qual o risco real da contaminação cumulativa.
As autoridades tentam nos acalmar dizendo que não há perigo imediato e uns poucos ambientalistas obcecados com as emissões de carbono repetem o mantra da indústria de que apenas uns poucos morreram em Chernobil – o pior acidente nuclear da história. Aqueles que não concordam são desqualificados e colocados no mesmo grupo dos que negam as mudanças climáticas.
Eu prefiro as palavras de Alexey Yablokov, membro da academia russa de ciências, e conselheiro do presidente Gorbachev à época de Chernobil: “quando você ouvir 'não há perigo imediato' [de radiação nuclear] então é hora de correr para o mais longe e o mais rápido que você puder”.
Cinco anos atrás eu visitei áreas ainda altamente contaminadas da Ucrânia e da fronteira da Bielorrússia, onde a maior parte da radioatividade de Chernobil se concentrou. Eu desafio o chefe cientista John Beddington e ambientalistas como George Monbiot ou qualquer um dos que agora desqualificam os riscos da radiação a conversar com médicos, cientistas, mães, crianças e moradores dos vilarejos onde as conseqüências do acidente nuclear se concentraram.
É assustador. Fomos de hospital em hospital e de uma vila contaminada para outra. Encontramos bebês deformados e com mutações genéticas; crianças doentes; adolescentes com crescimento anormal e corpo deformado; fetos sem pernas ou dedos e pessoas dizendo que todos os membros de suas famílias estavam doentes.
Isso foi 20 anos depois do acidente mas nós ficamos sabendo de muitas pessoas com tipos raros de câncer nos ossos. Um médica nos disse, chorando, que em alguns lugares uma em três gestações tem má-formação e que ela estava sobrecarregada de pessoas com desordens nos sistemas imunológicos e endócrinos. Outros disseram que eles ainda detectavam césio e estrôncio no leite de mães vivendo em áreas distantes das mais afetadas, e significativa radiação ainda estava presente na cadeia alimentar. Pessoas das vilas confirmam que o “colar de Chernobil” - câncer de tireoide – é tão comum quanto chama atenção; e muitos mostram sinais de envelhecimento acelerado.
Médicos e cientistas que têm lidado diretamente com a catástrofe dizem que o número de vítimas oficialmente reconhecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica da ONU – 50 mortos diretos e talvez 4 mil que vieram a morrer depois – é um insulto e de um simplismo grosseiro. O Centro Científico de Radiação da Ucrânia, que estima que a mortalidade infantil aumentou entre 20 e 30% depois do acidente, diz que seus dados não são reconhecidos pela ONU pois não foram publicados em um grande jornal científico.
Konstantin Tatuyan, um dos “liquidadores” que ajudou a limpar a usina, nos disse que praticamente todos os seus colegas morreram ou desenvolveram algum câncer, de um tipo ou outro, mas que nunca ninguém entrou em contato com ele para evidências.
Existe um candente ressentimento com a forma com que a ONU, a indústria e formadores de opinião mal informados tem desconsiderado os efeitos da catástrofe. Enquanto há milhares de estudos na Europa oriental sobre os efeitos da radiação de Chernobil na saúde, apenas uns poucos são aceitos pela ONU, e há apenas uns poucos estudos internacionais tentando agrupar números totais. Eles vão do estudo dos Comitês Científicos dos Efeitos da Radiação Atômica da ONU (57 mortes diretas e 4 mil casos de câncer) ao dos Físicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear, que estima que mais de 10 mil pessoas foram afetadas por câncer de tireóide apenas e que outros 50 mil casos podem ser esperados.
Subindo a escala, um estudo de 2006 de parlamentares europeus do Partido Verde sugerem até 60 mil mortes: o Greenpeace pegou evidências de 52 cientistas e estimou as mortes e as doenças em 93 mil cânceres terminais até agora e talvez outros 140 mil mais no futuro. Usando outros números, a Academia Russa de Ciências Médicas declarou em 2006 que 212 mil pessoas haviam morrido em conseqüência de Chernobil.
No fim de 2006, Yablokov e dois colegas, calculando pela queda global em nascimentos e aumento de cânceres verificados depois do acidente, estimaram em um estudo publicado nos anais da Academia de Ciências de Nova York que 985 mil pessoas haviam morrido até agora e que o ambiente havia sido devastado. Os resultados foram recebidos com quase completo silêncio pela Organização Mundial da Saúde e pela indústria.
Em quem podemos confiar quando as estimativas mudam tão drasticamente? Devemos acreditar nas evidências empíricas dos médicos; ou nos governos e membros da indústria apoiados por campanhas de relações públicas? Tão político se tornou o campo da energia nuclear que agora você pode pegar os números que quiser, desacreditar os oponentes, e ignorar qualquer coisa que você não goste. A verdade é que talvez nunca saibamos a verdade sobre Chernobil pois os dados foram perdidos, milhares de pessoas de 24 países que ajudaram na limpeza do local se dispersaram através da gigante ex-União Soviética, e muitos morreram.
Fukushima não é Chernobil, mas é potencialmente pior. Uma catástrofe de múltiplos reatores acontecendo a 240 quilômetros de uma metrópole de 30 milhões de habitantes. Se acontecesse em Sellafield (nota do tradutor - uma das principais usinas nucleares inglesas, a 400 quilômetros a noroeste de Londres), haveria pânico nas principais cidades britânicas. Ainda não sabemos o resultado final mas ouvir de especialistas que a radioatividade não é nada sério, ou que esse acidente prova que precisamos de energia nuclear, não é nada menos de trágico.


Por: John Vidal, na Carta Maior.
Tradução: Wilson Sobrinho.
Em: 28 de Março de 2011.
Acesso em 04 de Abril, 2011.


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A possível catástrofe nuclear no Japão ...


Olá pessoal ...

Após a grande catástrofe social/econômica provocada pelo terremoto/tsunami no Japão, ainda existem riscos de outra grande catástrofe – agora uma explosão nuclear.
Até o momento sabemos que o risco dessa grande explosão é muito significativo. A mídia buscou até mesmo comparações entre as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki (ambas no Japão) e a usina em Chernobyl (Ucrânia).
Neste incidente – a possível catástrofe nuclear no Japão - o que observamos são vários relatórios diferentes sobre o mesmo problema: alguns relatando o grande risco da explosão e outros tentando amenizar a situação!
O governo japonês lança notas afirmando ter controle da situação e que, apesar de existir o risco, o problema será solucionado. Em contrapartida, outros técnicos e peritos no assunto (não japoneses) afirmam que o perímetro de 60 km estabelecido pelo Japão para segurança da população é pequeno (estadunidenses afirmam que o mínimo deveria ser de 80 km).
Perante tanto desencontro de informações, a Global Post entrevistou um perito no assunto - o professor Arnold Gundersen - a fim de obter uma terceira opinião. A revista Carta Capital publicou esta entrevista, por meio do colunista David Case.
Observem outra análise deste incidente - passível de ser considerada uma grande catástrofe.
                    

À SOMBRA DA CATÁSTROFE NUCLEAR


O desastre nuclear em Fukushima, Japão, continua a se agravar. Múltiplas explosões fizeram saltar os tetos e paredes externas de reatores da usina e uma luta heróica está em curso, para prever o pior. Durante vários dias, as autoridades tentaram tranqüilizar o público. Agora, pedem ajuda.
Para obter respostas independentes sobre os riscos enfrentados pela população, o Global Post entrevistou Arnold Gundersen, de 39 anos, ex-veterano da indústria nuclear. Hoje professor de Física e Matemática em Kent (veja sua história), Gundersen trabalhou como operador de usina nuclear e atuou como especialista na investigação do incidente de Three Mile Island, nos EUA.

Autoridades japonesas afirmam que a possibilidade de uma emissão de radiatividade em larga escala é pequena. Você concorda?
Arnold: Temo que a possibilidade seja de 50%, o que não considero “pequeno”.

Qual a base do seu cálculo?
Arnold: Há diversas razões. Temos três reatores envolvidos. Além disso, a radiação já está sendo captada por aviões a 150 quilômetros de distância e na cidade. Se for cada vez mais difícil controlar estas instalações, as tentativas de conter a contaminação irão falhar. Isso resultaria no lançamento rápido de enormes doses de radiação.

O New York Times relata que as emissões radiativas poderiam durar semanas ou meses. Que preocupação isto causa? Em que momento um reator no estado dos de Fukushima torna-se menos perigoso?
Arnold: A reação em cadeia foi interrompida. Ela durou dois segundos. Mas os isótopos radiativas ainda estão se desintegrando. O processo durará pelo menos um ano. Por isso, é preciso reduzir em muito a pressão dos reatores, a cada dia. Isso exige liberar isótopos radiativos, também.
O New York Times está certo quando afirma que cada reator – três dos quatro da usina – precisará abrir válvulas todos os dias para garantir a queda de pressão. E haverá radiações destas instalações por pelo menos um ano.

Quais as ameaças para as saúde?
Arnold: Em 90 dias, os riscos causados pela Iodina radiativa desaparecerão, porque ela se desintegrará. Mas os isótopos mais nocivos – césio e estrôncio – durarão 30 anos. E são voláteis.
No acidente de Three Mile Island, estrôncio foi detectado a 220 quilômetros do reator. Termina no leite das vacas e não desaparece por 300 anos. As emissões dos reatores japoneses vão durar um ano e conterão elementos que permanecerão na natureza por três séculos, no melhor dos casos. Se houver uma explosão, será muito pior.

O grande risco num acidente nuclear é que o calor torne-se intenso a ponto de romper a blindagem de aço, lançando enormes doses de radiação. Você diz que este risco é, atualmente, de 50%. Quais seriam as conseqüências, se o pior ocorresse?
Arnold: De alguma forma, as blindagens já se romperam. Iodina radiativa e césio foram encontrados na natureza, porque o primeiro reator explodiu. Sua presença na atmosfera é uma indicação clara da ruptura.
O vazamento é de 1% dos isótopos radiativos gerados, por dia? Provavelmente. Nestas condições, ele afetará as cidades a um raio de 3 quilômetros. Acho que ninguém poderá voltar a elas em cinco anos. Num raio maior, de 20 quilômetros, acredito que o isolamento tenha de chegar a seis meses. Tudo isso na melhor hipótese, a de que se evite um derretimento. Se ele ocorrer, não poderá haver ninguém, num raio de 30 quilômetros, por dez ou quinze anos.

Por que o isolamento?
Arnold: Nas regiões contaminadas, haverá alta incidência de câncer. As águas subterrâneas serão atingidas. Com um derretimento, tudo, a quilômetros de distância do reator, será contaminado.

Qual seria a rapidez da contaminação da água?
Arnold: Em Chernobyl houve um derretimento e a faixa de águas subterrâneas contaminadas está aos poucos expandindo-se até Kiev, uma cidade muito grande distante cerca de 130 quilômetros. Não é algo fácil de mitigar.

É um problema grave num país como o Japão, muito populoso e com área relativamente reduzida.
Arnold: Claro.

Você afirma que a blindagem já foi afetada, ao contrário do que dizem as autoridades japonesas. Como você pode saber que está certo?
Arnold: Há Iodina radiativa e césio no ambiente. É uma indicação de que os reatores estão vazando. Exatamente quanto, é difícil dizer. Não posso entender como estas autoridades podem dizer que as emissões são baixas, sem ter os instrumentos operando. É muito difícil determinar os níveis de radiação e de pressão.
O Japão e sua indústria nuclear fizeram investimentos muito pesados em energia nuclear. Também depois de Three Mile Island e de Chernobyl, afirmou-se que não haveria problemas, até que eles apareceram. Por isso, não acredito muito em pronunciamentos oficiais na primeira semana de um acidente.

Significa que as pessoas com acesso a informação têm interesses em tornar as informações tão tranqüilizadoras quanto possível?
Arnold: Sim, além disso de as autoridades buscarem evitar o pânico. Há o interesse financeiro de longo prazo em minimizar o impacto. Perde-se transparência, no processo de construção da informação. Estamos todos lidando com informações de segunda mão.
Ouvi de uma fonte que o segundo reator não pode ser ventilado, porque o ventilador quebrou. Não sei se é verdade ou não. Goste de ter ao menos duas fontes. Mas o acidente ainda não terminou. E ele pode agravar-se, antes de começar a se dissipar.

Se o sistema de ventilação estiver quebrado, a pressão continuará subindo, até que algo catastrófico ocorra?
Arnold: Neste caso, sim.

Tivemos explosões em dois dos prédios onde os reatores estão instalados. Você operou reatores nucleares. Num caso como este, as salas de controle seriam afetadas pelas explosões? E como é possível continuar controlando os reatores, em tais circunstâncias?
Arnold: Sim, as salas de controle estão quase totalmente inabitáveis. Os operadores devem estar usando cilindros de oxigênio, para não respirar ar contaminado depois que a ventilação falhou. A sala de controle fica muito próxima aos reatores, provavelmente a uns 60 metros. Duvido que seja possível fazer muita coisa por lá. Estão contaminadas, seu ar não pode ser respirado. E é muito difícil fazer algo usando um cilindro de oxigênio e roupas parecidas com uma bolha.

Nesse caso, como se reduz a pressão? Os técnicos estariam sendo enviados ao reator, para realizar tarefas manualmente?
Arnold: Podem mandar gente para abrir manualmente uma válvula. Mais tarde, esta pessoa terá de voltar para fechá-la, também com as mãos. Num terreno de radiação intensa, é possível fazer poucas viagens antes de se expor aos limites máximos de radiação. Os trabalhadores recebem doses muito grandes, em curtos períodos. Não se pode expô-los a muitas tarefas, para não liquidar sua saúde. É um trabalho altamente especializado.

As doses a que os trabalhadores estão sendo submetidos os afetarão?
Arnold: Os riscos de desenvolverem câncer aumentará dramaticamente porque, de qualquer forma, as doses diárias que recebem superam as que se pode sofrer num ano. Para cada 250 rem recebidos, haverá um câncer. É um dado muito bem estabelecido. Entre um grupo submetido a 2,5 rem, haverá um câncer para cada cem pessoas.

A esta altura, Tóquio está a salvo?
Arnold: O vento dilui e espalha a radiação. Tóquio está distante. Mas a Alemanha também não fica perto de Chernobyl, e o solo em algumas partes da Alemanha foi tão contaminado que ainda se proíbe a caça de javalis, 25 anos depois.
Ressalto que, no caso japonês, não temos medidas acuradas. Um avião cargueiro norte-americano passou a 160 quilômetros do acidente, e a tripulação recebeu, em uma hora, a dose de radiação que normalmente receberia em um mês.

A radiação pode chegar aos Estados Unidos?
Arnold: Ela certamente chegará. Chernobyl chegou aos Estados Unidos. A questão é: quanta radiação? Não há dados para prever.

Há riscos de contaminação dos alimentos?
Arnold: No Japão, certamente.



Por: David Case, na Carta Capital.
Em: 17 de Março de 2011.
Antonio Martins (Tradução).
Acesso em 17 de Março, 2011.



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