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Entrevista com David Harvey...


Olá pessoal...

As análises da crise atual apresentadas pela mídia, de uma maneira geral, são sempre de caráter estritamente econômico. Porém, quando a analisamos não podemos ser tão restritivos. As questões de ordem econômica refletem e são um reflexo das condições/questões sociais e políticas. Uma visão da crise dissociada dessas demais questões envolvidas prejudica a análise da conjuntura do sistema atual.
Na entrevista transcrita abaixo com o Geógrafo David Harvey, notamos justamente o contrário. Suas palavras buscam expressar uma análise completa e dialética da realidade, rompendo com a ‘pseudoconcreticidade’ (o que vimos à primeira vista é o fenômeno, o mundo das representações comuns, da práxis fetichizada, que passa a impressão de que tudo é natural e independente).  
Harvey, ao refletir sobre as condições espaciais da atualidade vai para além disso. Ele consegue destruir essa aparente independência dos fenômenos. O seu pensamento dialético não nega a existência ou objetividade dos fenômenos, mas destrói sua pretensa independência e naturalidade, para mostrá-los como fenômenos derivados e mediatos, como produtos da práxis social da humanidade.
Essa perspectiva de análise espacial é de suma importância para a compreensão das condições espaciais hodiernas, ao passo que se busca uma análise completa e concreta das questões econômicas/sociais/políticas.
A entrevista abaixo realizada por Maria Luisa Mendonça e Fábio T. Pitta, por meio da revista/jornal eletrônico ‘Brasil de Fato’, pode contribuir muito para as discussões a cerca desse tema, nessa perspectiva.


ENTREVISTA COM DAVID HARVEY

O geógrafo britânico David Harvey
          Foto: ‘Brasil de Fato’
O geógrafo britânico David Harvey é um dos principais intelectuais marxistas hoje e está entre os vinte cientistas sociais mais citados em todo o mundo. Atualmente é professor na City University of New York e esteve no Brasil recentemente para o lançamento de seu livro O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo, publicado pela Editora Boitempo. A análise de Harvey sobre a crise no modo de produção capitalista tem sido sistemática nas últimas décadas, desde o livro clássico The Limits to Capital (Os Limites do Capital) publicado originalmente em 1982. O autor resgata o pensamento de Marx de forma complexa e ao mesmo tempo didática, para mostrar criticamente as contradições inerentes ao capitalismo, com a intenção de apontar possibilidades de superação deste modo de produção.
   
Maria Luisa e Fábio Pitta: O senhor tem analisado o processo de crise há bastante tempo, especialmente desde seu livro Os Limites do Capital. Como caracteriza estes limites no contexto da atual crise? Seria possível dizer que existe um processo simultâneo de crise e acumulação de capital?
David Harvey: Inicialmente é preciso entender que o capital nunca resolve seus problemas, apenas os transfere para outro lugar. Há hoje um aumento na velocidade com que essa transferência é feita, pois o movimento do capital é determinado de acordo com o jogo de poder político, que protege uma pequena elite financeira. Nos Estados Unidos, a grande maioria da população continuará a sofrer os efeitos da crise, que parece ter chegado a um patamar político. Ou seja, eu vejo que a crise, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, é mais política do que econômica. Por isso a crise se estende e aumenta, de acordo com os interesses de uma pequena classe de capitalistas. Vemos uma crescente concentração de riqueza no Brasil, na Índia, na China e, é claro, nos Estados Unidos.
        
Maria Luisa e Fábio Pitta: Como o senhor avalia as saídas tradicionais que têm sido utilizadas para lidar com a crise, sejam neoliberais ou keynesianas? Quais os limites destas receitas? É possível diferenciar estes dois campos ou o que vemos é transferência de mais-valia social para o setor privado através do aparelho estatal?    
David Harvey: A expansão da economia nos Estados Unidos nas últimas décadas se deve em grande parte ao crescimento do mercado imobiliário – o que veio a causar a bolha financeira neste setor. Isso mostra que não é possível sair da crise através das alternativas tradicionais. Ao mesmo tempo, vemos que o mesmo processo de acumulação está acontecendo na China, onde se desenvolvem grandes projetos imobiliários e de infraestrutura. De certa forma, a China está implantando um projeto semelhante ao que ocorreu nos Estados Unidos na década de 1950, com a expansão dos subúrbios urbanos e a construção de rodovias, estimulada pela indústria automobilística. Podemos identificar este tipo de saída keynesiana ocorrendo no capitalismo global onde há crescimento, inclusive crescimento acelerado. Na América Latina, vimos revoltas contra o velho estilo do neoliberalismo e hoje há uma tendência keynesiana na economia. Já em países onde a receita neoliberal tem sido aplicada, como Europa e Estados Unidos, a crise se agrava. Mas é claro que isso não significa que o capitalismo global será salvo se todos se tornarem keynesianos. Os limites do sistema keynesiano já estão aparecendo na China, onde há uma superprodução de infraestrutura, uma bolha de ativos econômicos e aumento da inflação. Creio que podemos observar o mesmo processo na Argentina e no Brasil, o que revela os limites tradicionais do modelo keynesiano.
    
Maria Luisa e Fábio Pitta: No livro O Enigma do Capital o senhor caracteriza a crise atual de forma distinta das crises cíclicas, como na concepção de ciclos de Kondratieff, de queda tendencial da taxa de lucro ou da idéia de que as crises são consequência da queda do consumo ou do subconsumo. É possível dizer que a própria narrativa do livro mostra este processo?
David Harvey: O pensamento marxista tradicional imagina que exista uma única contradição através da qual as crises se desenvolvem no capitalismo. Porém, se observamos particularmente o segundo volume de O Capital, vemos que o que existe é um processo com vários momentos e, em cada um destes momentos, há a possibilidade de um bloqueio, o que gera a possibilidade de crise. Por exemplo, pode haver um bloqueio por falta de financiamento, como nos anos de 1970 quando os economistas falavam em “depressão financeira”. Isso levou ao processo de desregulamentação financeira, também caracterizado como “liberação de capital”. Mas ninguém fala sobre isso hoje. Naquele período havia uma classe trabalhadora mais organizada e o poder salarial era bem mais forte. Hoje isso não ocorre e, portanto, é difícil justificar a crise jogando a culpa nos sindicatos, como aconteceu anteriormente. No livro eu procuro mostrar que não é possível entender a crise a partir de um único lugar, mas perceber que há uma série de bloqueios, inclusive bloqueios em relação ao suprimento de energia ou recursos naturais. Eu procuro juntar estes elementos e pergunto: onde este processo está localizado hoje e para onde deverá ou poderá mover-se? Como o capital poderá superar um determinado bloqueio? Ou seja, eu não concentro a análise da crise em uma única explicação, como na diminuição do consumo ou na queda da taxa de lucro. Minha análise parte de uma combinação de fatores, que pode incluir todos estes elementos e por isso é preciso estudar concretamente. A teoria de Marx sobre a crise fala sobre possibilidades de crises. Por isso devemos procurar entender como essas possibilidades se transformam em realidade. Através de quais processos sociais?     

Maria Luisa e Fábio Pitta: Em nenhum momento do livro identificamos o objetivo de procurar resolver a crise. É isso mesmo? 
David Harvey: Claro, o capital não pode resolver sua crise.
    
Maria Luisa e Fábio Pitta: Como o senhor vê a luta de classes hoje e os movimentos de protesto que falam em transformação através da idéia de que somos “os 99%”? 
Jovens reunidos na ocupação Wall Street, em Nova York
Foto: asterix611/CC

David Harvey: Há dois tipos de possibilidades sendo debatidas. Uma seria manter o capitalismo através de mecanismos de retenção e regulação, o que poderia causar flutuações, mas não grandes fraturas. Seria uma forma de reorquestrar o capitalismo para que não causasse tantos danos como hoje, para promover mais igualdade, alguma distribuição de riqueza e sustentabilidade ambiental, como muitos na esquerda defendem. Outras pessoas dizem que não há saída no modo de produção capitalista e que é necessário buscar outras alternativas, com mudanças estruturais políticas e econômicas. É claro que as crises podem ocorrer em qualquer sistema, já que não é possível imaginar uma sociedade onde tudo funcionaria perfeitamente. Mas em um sistema não-capitalista as crises seriam de outro tipo. Acho que estamos nessa encruzilhada histórica, onde não temos muita segurança do que seria possível. Então surge o debate sobre reforma ou revolução. Eu acredito que há reformas que levam à revolução. As economias se tornaram tão interdependentes que uma proposta de revolução imediata poderia gerar catástrofes com muitas mortes. Então a questão seria avaliar que tipo de reformas teria um caráter revolucionário e levaria a outro sistema que abolisse a relação de classe, já que a essência do capitalismo é a relação entre capital e trabalho. Portanto, um projeto anticapitalista teria de erradicar a relação de classe. Há diversos movimentos pensando nessa direção como, por exemplo, as cooperativas de trabalhadores que recuperaram fábricas, mas alguns acabam reproduzindo um sistema de exploração capitalista, no qual os trabalhadores são seus próprios patrões. Portanto, não é suficiente pensarmos em termos de microeconomia, é necessário repensar a macroeconomia.  
  
Maria Luisa e Fábio Pitta: Como o senhor vê o processo que descreveu como “acumulação por espoliação” na atualidade? Devemos analisá-lo como uma característica dos limites do capital ou como uma forma que o capitalismo encontra para, digamos, se reciclar?
David Harvey: Na medida em que o capital apresenta maior dificuldade para se sustentar, principalmente nos últimos 30 anos, aumenta a espoliação. Vemos hoje um enorme processo de expropriação e destruição de ativos e bens em várias partes do mundo, como no caso do mercado imobiliário, das poupanças e do roubo de direitos sociais, como no caso da saúde pública. Isso representa um enorme processo de acumulação por espoliação. Ao mesmo tempo, desde 2007, vemos uma enorme grilagem de terras por agentes particulares, empresas e governos em várias partes do mundo. A China, por exemplo, tem participado ativamente deste processo. Mas também vemos resistência política contra a espoliação. Estes movimentos de resistência podem se converter na base para uma transição anticapitalista. Além dos operários, todos os trabalhadores que produzem e reproduzem os centros urbanos e as organizações de luta pela terra podem se converter em um movimento massivo de construção de uma sociedade não-capitalista.   

Maria Luisa e Fábio Pitta: Como o senhor analisa a possibilidade de uma nova guerra nesse momento de crise, dado o poderio bélico estadunidense armazenado?
David Harvey: Na verdade o que existe é uma guerra permanente em toda a história do capitalismo. Hoje os Estados Unidos estão envolvidos em duas guerras. Seria viável pensar em uma terceira frente de guerra? Eu não saberia responder. A questão é analisar qual o papel econômico da guerra, não apenas o aspecto geopolítico das guerras. Nos Estados Unidos há setores financeiros poderosos mesclados com a indústria bélica, que defendem a necessidade de desenvolver melhores tecnologias militares e com isso procuram justificar uma nova guerra. Por outro lado, seria possível resolver o problema da dívida nos Estados Unidos simplesmente cortando o orçamento militar, que representa o dobro de todos os gastos militares em nível mundial. Existem propostas nesse sentido, mas uma forma de evitar esses cortes seria iniciar outra guerra para justificar os gastos militares e, por isso, existe a possibilidade de uma ação contra o Irã. Ao invés de cortes nos gastos militares o que tem ocorrido são cortes nos programas sociais. Se analisarmos a relação entre a corrida armamentista e a dívida nos Estados Unidos, vemos que aumentou muito durante a Guerra Fria e o governo de Reagan, e seguiu aumentando nos governos de Bush.


Por: Maria Luisa Mendonça e Fábio T. Pitta, no ‘Brasil de Fato’.
Em: 13 de Março de 2012.
Acesso em 20 de Abril, 2012.

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O legado dos EUA no Iraque: oito anos depois da invasão...

Olá pessoal...


Créditos: Eduardo Febbro
A potência imperialista estadunidense encerra mais uma de suas várias missões de ‘paz’. Apesar de contraditória essa relação guerra x paz, a mídia e a população, em geral, não estão percebendo isso. Normalmente entendem estes conflitos apenas na ótica da democracia (EUA) versus ditaduras/terrorismo. Mas, é preciso enxergar para além dessa percepção. Para maiores informações e discussões sobre o tema acessem as postagens: “A guerra no Afeganistão e no Iraque: um bom investimento estadunidense?”; “Charge sobre as reais intenções estadunidenses com a Guerra no Iraque...”; Há nos Estados Unidos um cansaço da guerra?; “Bombardeios não podem instaurar democracia na Líbia...”; “O que a morte de Bin Laden esconde?”.
Porém, o foco desta postagem é analisar especificamente as conseqüências e interferências da ação militar dos EUA no Iraque.
Já se passaram oito anos de invasão – que só terminou com a pressão (interna e externa) sob o atual presidente Barack Obama para que se cumprisse sua promessa de campanha. Tal pressão originou-se mediante os altos custos desta guerra (que com a crise atual foi determinante), resistência local e perda de apoio político e partidário.
Nesta invasão, morreram 100.000 civis, 4.800 soldados de coalizão (sendo 4.500 dos EUA) e mais 20.000 soldados iraquianos. Somando-se a esses números os U$$ 300 milhões de dólares gastos por dia (eu disse “por dia”) nessas movimentações militares – segundo dados do site de análises militares “Global Security”.
E para os iraquianos? Quais foram os legados deixados pela grande “ajuda” estadunidense? Segundo o artigo abaixo, de Eduardo Febbro, o legado da invasão é de morte, dezenas de milhares mutilados, insegurança, desemprego e precariedade em infra-estruturas básicas (saúde, educação, água potável e eletricidade). Assim, a democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o curso das coisas, ao contrário, os declinou.
Para mais detalhes, leiam o artigo abaixo...


O LEGADO DOS EUA NO IRAQUE: OITO ANOS DEPOIS DA INVASÃO

Passaram-se oito anos. Como pedras impiedosas que semearam a morte. Como aquelas horrendas imagens que surgiam à beira das estradas no caminho em direção a Bagdá. Fumaça, destruição, cadáveres e silêncio. Parece ontem. O cruzamento de estradas assinalava duas direções: Basra ou Bagdá. Através da estrada até Bagdá, as sucessivas batalhas da ofensiva emergiam como cogumelos despedaçados: ônibus bombardeados, veículos calcinados, tanques arrebentados e crateras imensas cavadas pelos mísseis. Os tanques iraquianos dispostos em fila à beira da estrada pareciam latas de sardinha queimadas. Frente a eles, os tanques Abrams norte americanos tinham o aspecto de mastodontes invencíveis. « Quando começamos a avançar por esse trajeto, os soldados iraquianos saíam dos tanques para nos pedir água e comida », contava com lástima um oficial norte americano.
Os primeiros grandes subúrbios de casas baixas pareciam emergir de um pesadelo. As casas e as lojas tinham virado trincheiras e havia centenas de pessoas caminhando pelas ruas, levando colchões, cadeiras, roupas, televisões, máquinas de lavar roupa, velhas máquinas de costura. Bagdá, ao longe, estava envolta em uma espessa nuvem de fumaça escura. Os poços e as trincheiras de petróleo seguiam ardendo. Saddam Hussein havia mandado incendiá-los para impedir que os satélites norte americanos obtivessem imagens precisas do estado de Bagdá. Depois, a cidade aparecia finalmente. Ferida e assustada.
Em cima do capô de um automóvel que havia avançado sobre a calçada, um livro de capa azul exibia suas páginas milagrosamente intactas. Dentro do veículo, o corpo de um homem com o corpo tombado para frente tinha a cabeça partida e parte do cérebro esparramado em cima do porta-luvas. Ninguém prestava atenção. A cem metros do automóvel, um grupo de homens tentava, em vão, derrubar uma imensa estátua de Saddam Hussein erguida no centro de uma rótula. Do outro lado, três mortos jaziam à margem da rua. Um grupo de cachorros sarnentos disputava a propriedade do corpo de um dos mortos: um menino de seis anos estava ali também, sem um sapato e sem a metade do rosto. 
Saddam Hussein havia desaparecido. O exército ocupante se instalava em tendas nos territórios de sua nova conquista, ocupava os palácios de quem tinha sido seu aliado, se apoderava das ruas da cidade transformada e restaurada pelo ditador com a ajuda dos arquitetos enviados pelo Ocidente nos anos em que Saddam era um sócio confiável e ninguém se importava que ele afogasse seu povo em uma lagoa de sangue. O choque de civilizações acabava de se plasmar em sua versão mais violenta: a de um país milenar e reprimido, a de uma potência ocidental que havia enviado do céu uma chuva de democracia comprimida em cachos de bombas.
Há lugares cujo nome e os símbolos que evoca sobrevivem aos estragos do tempo e das guerras. Bagdá tinha esse dom. Horrível e mágica. Histórica e contemporânea. Ameaçadora e hospitaleira. As Mil e uma Noites, um grande livro onde, a cada virada de página, havia muitos mortos. O soldado Higins tinha visto inúmeras fotos de Bagdá antes da invasão, mas nunca havia imaginado a cidade real que encontrou quando sua unidade entrou na capital depois do que qualificava como « um combate épico » contra um inimigo « inferior, mas disposto a tudo ». Higins dizia que, até sua chegada a Bagdá, não havia conhecido a morte e tampouco imaginado como seria. Agora já tinha se acostumado ela, mas o primeiro morto seguia fazendo companhia a ele em sua memória. « A primeira vez que matei um homem foi à noite. Fiquei com uma sensação estranha, irreal. Não posso esquecer. 
Minha unidade encontrava-se na periferia de Bagdá. Fazíamos parte de uma patrulha avançada que estava por penetrar na capital desde o sul. Tínhamos recebido a ordem de consolidar a zona e seguir adiante. Seguimos as instruções e no início da madrugada começaram a nos atacar. Choviam tiros de metralhadoras e bazucas. Como não se via nada usamos os fuzis com visão noturna. O primeiro homem que apareceu na mira avançava por uma rua lateral, ocultando-se entre as portas. Era um alvo fácil. Deixei que avançasse. Apontei e disparei. Ele cai no chão e voltou a se levantar, cambaleante. Disparei mais duas vezes. Não posso dizer que nesse momento senti que o tinha matado. Com as miras de visão noturna tudo é visto de um modo distinto, como se fosse um jogo informático. A realidade é mais lenta e as coisas têm a forma de silueta ».
« Sei que está por aí, Saddam é eterno. Um império não pode com ele. Saddam vive até no silêncio », dizia o empregado de um hotel que havia desaparecido em um incêndio. A única coisa que estava ali, pulsando no meio da fumaça, era o futuro. O futuro já estava escrito nas múltiplas sequência da queda de Bagdá na indolência e ignorância dos ocupantes. Essa ignorância brutal era a matéria prima da ação de Paul Bremer, o ineficiente e teimoso responsável pela CPA, a Autoridade Provisória da coalizão encarregada de administrar o Iraque com estatuto de autoridade governamental. 
A guerra começou em 19 de março de 2003. Cerca de três semanas mais tarde, Bagdá caiu nas mãos da coalizão. No dia 1° de maio de 2003, o presidente George W. Bush deu por encerrada essa fase com a expressão triunfalista « missão cumprida ». No dia 6 de maio, Bush nomeou Paul Bremer. O « vice-rei » Bremer chegou a Bagdá e abriu a caixa de Pandora com um projeto político, econômico e administrativo delirante: converter o Iraque em uma representação dos Estados Unidos no Oriente Médio: liberal, democrática, permissiva, um centro de negócios ao melhor estilo dos falcões da Casa Branca. 
Ele não tinha a menor ideia do chão em que estava pisando. Sua primeira decisão consistiu em decretar a « desbasificação » da sociedade iraquiana. Bremer pretendia sanear o sistema político com uma ordem inaplicável: fazer desaparecer o partido Baas e seus representantes em uma sociedade onde, para conseguir trabalho ou ser membro da administração pública, era obrigatório aderir ao Baas. Paul Bremer decretou a demissão de milhares de empregados e executivos da administração pública, dos organismos encarregados do petróleo, dos bancos, das universidades. Onze dias depois de ter assumido suas funções, Bremer assinou outro decreto enlouquecido: dissolveu o exército, a aviação, a marinha, o Ministério da Defesa, os serviços de inteligência. Seu frenesi ignorante chegou ao ponto de, em um país que saía de um prolongado embargo internacional, que estava em guerra, onde os hospitais estavam destruídos e faltava até algodão, lançar uma campanha contra o tabagismo e elaborar um projeto para distribuir rações alimentares com cartões de crédito.
Passaram-se oito anos e os Estados Unidos fecharam a porta do Iraque deixando um desastre atrás dela. Durante o conflito, morreram mais de 100 mil civis, 4.800 soldados da coalizão perderam a vida (4 .500 dos EUA), junto com 20 mil soldados iraquianos. « Depois de todo o sangue derramado, o objetivo de que o Iraque governe a si mesmo e seja capaz de garantir a segurança se cumpriu », disse o secretário de Defesa estadunidense, Leon Panetta. O legado da invasão é outro: morte, dezenas de milhares de mutilados, insegurança, desemprego, falta de água potável e eletricidade. A democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o curso das coisas. A queda do déspota permitiu que os xiitas, majoritários no país e reprimidos até a barbárie por Saddam Hussein, tomassem as rédeas do poder sem que isso implicasse unidade ou estabilidade. O Iraque segue sendo um país em carne viva onde as feridas da ocupação não se fecharam.
Passaram-se oito anos e o espelho de ontem está intacto, a voz de Fátima ainda ressoa naquela cidade em chamas. As lágrimas brotavam de seus olhos e, ainda assim, era capaz de sorrir e chorar ao mesmo tempo. Um sorriso de anjo, de criança, o sorriso da desnudez de um despossuído. Fátima observava os militares norte americanos com um incessante sinal de pergunta. Eles a tomavam por louca. Quando passava diante dos soldados, a mulher os saudava e perguntava: « por quê? » Às vezes, davam-lhe comida, água e um pouco de dinheiro. Fátima aceitava, mais para se aproximar daqueles que tinham destroçado sua realidade do que por fome.
Ninguém entendia sua pergunta. Por trás de seu sorriso tenro e luminoso, a tristeza marcava seus traços. Fátima estava vencida. Enquanto contemplava as ruínas do que uma vez foi sua casa, a mulher voltava a perguntar « por quê? ». Quando falava, uma careta infantil e piedosa se desenhava como um relâmpago. 
Fátima tinha perdido tudo. Dias após dia, com um empenho obstinado, a mulher escavava os escombros do edifício familiar destruído por uma bomba, buscando os restos de seus pertences passados. Seu filho menor a acompanhava sempre. Ia de um lado a outro de Bagdá apegado a ela como um animal indefeso. Fátima revolvia as entranhas de pedras destroçadas e retirava uma frigideira, um retrato intacto, um cachecol, um par de sapatos, alguma cadeira desconjuntada pela explosão, pedaços de recordações e bens devastados. O living, a sala de estar, a cozinha, o quarto, os espaços de sua intimidade estavam soterrados por toneladas de pedra e poeira.
Fátima mostrava o que havia sobrado de sua casa: um monte de ferro e cimento sobre o qual se superpunha seu eterno sorriso. Ela também tinha no olhar essa marca feita de solidão, de luz, de incompreensão, de pura intempérie: a marca da injustiça. A mulher dizia que, talvez, o futuro de seu filho não seria parecido com o seu, que talvez ele conheceria a liberdade, um trabalho decente e a democracia. Fátima se projetava no filho que restou porque seu presente era um lugar inabitável. Era escombros e a gaveta de uma cômoda miraculosamente intacta de onde tirava, assombrada e agradecida, duas fotos de seu marido e de sua filha morta, esmagada com seu pai nas ruínas, um par de meias e uma caixa de costura.

Por: Eduardo Febbro, na ‘Carta Capital’.
Tradução: Katarina Peixoto.
Em: 17 de Dezembro de 2011.
Acesso em 22 de Dezembro de 2011


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China cresce economicamente, mas e o crescimento social?

Olá pessoal...

A China é, hoje, o centro das atenções - com uma população gigantesca, alto crescimento econômico e um governo chamado (apenas isso) de comunista.
Esse partido está comemorando, em 2011, 90 anos. Mas será que a situação dos trabalhadores chineses melhorou? Sabemos que há um crescimento econômico efetivo no país, mas há também um crescimento social? Como estão os trabalhadores chineses? Durante os acontecimentos revolucionários no Egito, as autoridades chinesas exibiram extremo nervosismo aumentando a presença policial nas ruas e censurando a Internet, onde as referências à Revolução Egípcia estavam proibidas. Por que os governantes da China ficaram tão preocupados com acontecimentos que ocorriam em países tão distantes? Há algo de errado...
Portanto, sobre este assunto importantíssimo para quem pretende fazer vestibular e ENEM este ano, faz-se necessário tecer uma série de idéias, perguntas, reflexões sobre a real situação chinesa. Estariam os chineses esperando o bolo crescer, para depois repartir (como diziam os ditadores militares no Brasil)?
O artigo abaixo é uma ótima dica para quem deseja analisar o assunto de outra perspectiva...


China: a raiva sob a superfície

A mídia está repleta de comentários elogiosos sobre o crescimento econômico da China, que, se supõe, ignorou a crise econômica mundial, com uma média de crescimento anual de mais de 10%. Mas estes números nada nos dizem sobre os efeitos deste crescimento econômico sobre a massa da população. Nada nos dizem sobre a grande desigualdade e sobre o fosso crescente entre ricos e pobres. Nada nos dizem sobre os 150 milhões de desempregados ou sobre o sofrimento de milhões de camponeses chineses que são forçados a migrar para as cidades super-povoadas, a fim de ganhar a vida nas fábricas, onde sofrem exploração extrema e condições industriais semelhantes às da Inglaterra nos tempos de Charles Dickens.
Ao contrário da Rússia, a contra-revolução capitalista na China tem sido realizada de forma controlada, sob as regras draconianas da burocracia e do assim chamado Partido Comunista, que, agora, admite capitalistas em suas fileiras e é visto como um trampolim para carreiristas e alpinistas sociais. Os trabalhadores têm poucos direitos e o papel dos sindicatos oficiais é o de policiá-los e não o de lutar por seus interesses.
A China se assemelha a uma gigantesca panela de pressão com a válvula de segurança entupida. Pode explodir a qualquer momento e sem aviso prévio. Isto se evidenciou recentemente com os eventos em Xintang, na província industrializada de Guangdong, no sul da China, onde, durante três dias, os trabalhadores se revoltaram contra as condições intoleráveis, queimando veículos policiais e mesmo lutando contra a polícia. Emissoras de Hong Kong informaram que a polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão.

Pobreza e riqueza
A cidade de Xintang fica a cerca de uma hora de viagem de Guangzhou, a opulenta capital do sul da província de Guangdong, próxima à fronteira com Hong Kong e que produz cerca de um terço das exportações do país. Cerca de 150 milhões de trabalhadores se deslocaram do campo para as cidades em busca de melhores padrões de vida.
Os confrontos da sexta-feira, 10 de junho, começaram depois que a polícia agrediu uma mulher grávida, vendedora ambulante, Wang Lianmei, durante uma operação de repressão ao comércio ambulante. A agência estatal de notícias, Xinhua, informou que ela caíra durante a disputa, enquanto que outras fontes informam que a chengguan – a força policial de baixo escalão – a tinha empurrado. Não importando qual das versões esteja correta, não há dúvidas de que a massa popular acreditou na agressão.
Os trabalhadores migrantes seus conterrâneos da província de Sichuan imediatamente se juntaram. A polícia local tem reputação de delinquente e quando os veículos policiais foram chamados à cena foram recebidos com uma chuva de garrafas, tijolos e pedras. A maioria dos manifestantes era formada por trabalhadores migrantes, como a mulher que sofreu a agressão policial.
Os manifestantes destruíram o escritório do governo no subúrbio da cidade de Dadun, incendiando pelo menos seis veículos. Pedaços de portões de ferro e cercas de arame farpado ficaram espalhados e destroçados. A multidão começou a atirar tijolos, pedras e garrafas sobre a polícia e as autoridades locais, bem como foram vandalizados postos policiais e de telecomunicações. Como foram espalhados rumores de que a polícia tinha matado o marido de Wang, Tang Xuecai, e que ela tinha sido gravemente ferida, outra multidão se reunião no dia seguinte.
A mídia local informou que Tang tinha aparecido em uma conferência de imprensa no domingo para dizer que sua esposa e seu bebê estavam “bem” e que ele estava “feliz com a intervenção do governo no caso”. Mas estas suaves palavras não conseguem esconder a raiva incandescente que está fervendo logo abaixo da superfície da sociedade chinesa.
Muitos moradores estavam com muito medo de falar sobre o incidente e os que o fizeram se recusaram a dar seus nomes por medo às represálias. “O ambiente é tenso e todos nós nos sentimos um pouco nervosos. Não devemos falar sobre isto”, disse You, uma costureira de 42 anos de idade, que, como outros, se recusou a dar seu nome completo.
“Estamos irados”, disse um trabalhador migrante de Sichuan à agência Reuters. O homem estava muito nervoso para revelar seu nome, dada a presença maciça de policiais em seu bairro. “Sinto que o Estado de Direito aqui não parece existir... Os funcionários locais podem fazer o que bem quiserem”.
Chao, de 27 anos de idade, proprietário de uma loja de jeans em Xintang, disse ao jornal Bangkok Post (15 de junho): “Foi muito assustador – a coisa mais assustadora que já vi desde que nasci”. Chao disse que em determinado momento da confusão havia “alguns milhares de manifestantes” enfrentando uma força policial poderosa, acrescentando: “Eles incendiaram um dos prédios”. E que “juntos viraram os carros da polícia e lhes puseram fogo. Logo chegaram centenas de policiais, que começaram a bater indiscriminadamente nas pessoas com bastões de metal”.

“Apenas um confronto normal”
As autoridades locais, naturalmente, tentaram minimizar o que aconteceu. “O caso foi apenas um confronto normal entre vendedores de rua e o pessoal local de segurança pública, mas foi usado por um punhado de pessoas que queria causar problemas”, disse Ye Niuping, prefeito local, pedindo aos moradores para não espalhar “boatos e invencionices”.
As palavras do prefeito são interessantes e disseram mais do que pretendiam. Ele considera que o evento tinha sido “apenas um confronto normal entre vendedores de rua e o pessoal local de segurança pública”. Isto significa que tais confrontos não são excepcionais, mas ocorrências regulares. Só que, desta vez, a raiva e o ressentimento acumulados do povo transbordaram. Tudo isto tem notável semelhança com a explosão que abalou a Tunísia, após o suicídio de um jovem vendedor de rua depois de ser agredido pela polícia.
“Havia muitas pessoas nas ruas tarde da noite, gritando e tentando criar caos. Algumas delas até quebraram veículos da polícia”, disse um trabalhador da fábrica de roupas Fengcai, que fica nas proximidades, acrescentando que os chefes proibiram os empregados de sair da fábrica. Um funcionário de um hotel na área disse que a polícia havia-lhes recomendado ficar em casa.
O relato de que os chefes das fábricas haviam proibido os trabalhadores de sair de seus recintos também é interessante. Isto revela que eles temiam que seus trabalhadores se juntassem aos que protestavam. A agência estatal de notícias Xinhua informou, na última segunda-feira, que as autoridades enviaram grupos de trabalho às aldeias e condomínios residenciais “para acabar com os mal-entendidos”. Mas o comando geral da polícia de Guangdong se recusou a fazer comentários e as chamadas para a estação local de polícia não eram atendidas, informou The Guardian em sua reportagem de segunda-feira, 13 de junho.
Mais de mil policiais foram convocados para Xintang depois dos distúrbios. Na quarta-feira uma calma tensa tinha se estabelecido em Xintang, de acordo com um repórter da AFP [Agência France-Press], mas muitas lojas e restaurantes permaneceram fechados, enquanto policiais armados com cassetetes e escudos e em veículos blindados realizavam patrulhas regulares, criando uma atmosfera de medo e intimidação. Mas, mesmo assim, alguns milhares de pessoas se reuniram, apesar da forte presença policial.
“Em torno da vila você pode ver marcas de queimaduras no terreno devido aos incêndios. Fui parado cinco vezes por policiais perguntando o que estava fazendo ali”, disse ao The Bangkok Post um moto taxista de 59 anos de idade, cujo sobrenome é Chen. “No primeiro dia do motim, os combates continuaram a partir das 11 horas até às seis horas do dia seguinte – foi muito duro. Você pode ver que hoje está mais silencioso, mas as restrições ainda se encontram em plena vigência”, acrescentou ele.
Estes acontecimentos devem causar um arrepio de medo nos escalões dirigentes. Eles representam a crescente frustração na sociedade chinesa. A recente onda de incidentes sublinha a situação explosiva que se encontra logo abaixo da superfície do crescimento econômico da China. Caso a caso, as causas aparentes da agitação são diferentes, mas as causas objetivas subjacentes são as mesmas: exploração selvagem, baixos salários, desigualdade extrema, completa falta de direitos e violência policial.
A Academia Chinesa de Ciências Sociais estima que houve mais de 90 mil “incidentes de massa” em 2006, com novos incrementos nos dois anos seguintes. A resposta das autoridades em pânico indica que estão bem conscientes do perigo que essas queixas generalizadas representam e que poderão terminar por explodir como aconteceu aos regimes da Tunísia e do Egito.
Os círculos do poder estão mais nervosos do que nunca desde o massacre na Praça Tiananmen, em 1989. Estão preocupados com uma agitação em escala muito maior. A China aumentou seu orçamento de segurança interna em 13,8% este ano, atingindo 624,4 bilhões de Yuan (59 bilhões de libras). Isto significa que, pela primeira vez, a China gasta mais agora em segurança interna que na defesa.
O rápido crescimento econômico da China e sua industrialização fortaleceram enormemente a classe trabalhadora, que já não está mais disposta a tolerar baixos salários e condições análogas de escravidão nas fábricas. As explosões sociais estão se preparando e podem ocorrer de repente, quando ninguém espere por elas. Parafraseando as palavras de Napoleão: “A classe operária chinesa é um gigante adormecido e quando acordar abalará o mundo”.


Por: Alan Woods, na ‘Esquerda Marxista’.
Em: 29 de Junho de 2011.
Acesso em 16 de Julho, 2011.

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Brasil: Protagonista econômico e coadjuvante militar...


Olá pessoal...

O Brasil tem tido avanços econômicos significativos. O direito de sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas em 2016 são exemplos expressivos de sua influência econômica externa. Porém, esse avanço econômico (é hoje a sétima potência econômica mundial) pouco influência avanços nas áreas sociais – a desigualdade, pobreza e fome continuam.
Com isso, a fim de se firmar como potência mundial, o Brasil se vê ‘forçado’ a investir em aparatos militares, principalmente, se desejar uma cadeira efetiva na ONU (Organização das Nações Unidas) em um futuro próximo. Apenas com influencia econômica e, sem influencia militar, o Brasil não terá as mesmas influencias dos demais países emergentes (China, Rússia e Índia).
Os gastos anunciados pelo governo nessa área (segurança militar) são exorbitantes. Mas, cabem algumas indagações: estamos em condições para isso? Melhor um caça novo ou um hospital novo bem equipado? Melhor um navio novo ou um salário digno para profissões fundamentais na sociedade (bombeiros e professores)?
Os gastos militares são importantes - na perspectiva de manutenção da soberania do Estado brasileiro. Mas é esse o momento de se ter preocupação com tal?
Reflitam sobre a necessidade ou não desses investimentos. Veja mais detalhes na reportagem abaixo.


PROTAGONISTA ECONÔMICO E COADJUVANTE MILITAR

Nas últimas décadas, o avanço socioeconômico brasileiro alçou o País ao centro das atenções mundiais, ao lado de outras nações em desenvolvimento, como China, Índia e Rússia, integrantes do BRIC – o grupo das economias emergentes que mais crescem no mundo.
O destaque no cenário global e a estabilidade financeira ampliaram a influência política do Brasil, reforçada com o direito de sediar a Copa do Mundo de futebol e as Olimpíadas.
Porém, segundo dois dos mais importantes especialistas militares brasileiros ouvidos por “Carta Capital”, o Brasil ainda precisa lidar com o sucateamento das Forças Armadas, incompatíveis com o papel do País no âmbito mundial, e uma segurança nacional precária.
Os estudiosos alertam que os investimentos anunciados pelo governo, como a compra de 36 caças, navios nucleares e sistemas de monitoramento de fronteiras, serão eficientes apenas se houver desenvolvimento da indústria militar nacional e a criação de tecnologia própria. Muitos dos sistemas, inclusive, serão controlados à distância - isso em um País onde hackers evidenciam a fragilidade da defesa cibernética nacional invadindo sites oficiais e mesmo o email da então candidata à presidência da República.
É envolto em um novo cenário geopolítico, no qual desponta como a sétima maior economia do planeta – e em vias de se tornar a quinta -, que o governo brasileiro decidiu reajustar as sua políticas de segurança nacional e se reestruturar militarmente. “Apesar de as nossas Forças Armadas serem aparentemente suficientes no cenário regional, elas não são proporcionais ao que o Brasil representa em termos mundiais”, afirma o doutor em engenharia aeronáutica e astronáutica, o brigadeiro e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Mauricio Pazini Brandão. “O Brasil é a potência líder ao Sul do Equador, mas temos um poder militar compatível com isso?”, questiona.
Para ele, os investimentos em defesa nacional, como a polêmica compra de 36 caças (adiada para 2012), são relativamente modestos se comparados ao de outras potências emergentes. As aeronaves serão comprados com transferência de tecnologia de EUA, França ou Suécia, pelo valor aproximado de 10 bilhões de reais.
“A Força Aérea da Turquia tem mais aviões de combate que o Brasil, apesar de uma extensão menor. Além disso, nem todos os equipamentos vão estar em condição de operar, afinal temos que separar unidades para treinamento e fazer a manutenção”, explica.
Tentando diminuir a disparidade econômica do poder militar, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou a Estratégia Nacional de Defesa no final de 2008. O documento, elaborado pelo então ministro do Planejamento Estratégico, Roberto Mangabeira Unger, e pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, define a reorganização das Forças Armadas e investimentos.
Os primeiros aportes ocorreram com o acordo de cerca de 20 bilhões de reais com a França em 2009, para a compra de submarinos convencionais, helicópteros e transferência de tecnologia de um submarino de propulsão nuclear.
No Exército, a novidade é o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras, estimado em cerca de 10 bilhões de reais. Com previsão de ser concluído até 2019, traz radares de imagem e de comunicação e veículos aéreos não tripulados e blindados para a proteção de fronteiras. A estratégia ainda prevê o aumento do número de Pelotões Especiais de Fronteira de 21 para 49, com prioridade para a região amazônica.

INDÚSTRIA NACIONAL
A estratégia visa ainda à reestruturação da indústria brasileira de material de defesa e política, para assegurar o atendimento das necessidades de equipamentos das Forças Armadas com soluções nacionais. “Precisamos desenvolver nossas próprias tecnologias e deixar de comprá-las do exterior, afinal, o cérebro é a grande defesa de um país”, afirma o doutor notório saber em Ciência Política e professor titular de Relações Internacionais e Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eurico de Lima Figueiredo.
A Embraer já supre grande parte das necessidades militares da aeronáutica, mas ainda não possui a capacidade de montar caças. “A intenção é utilizar a aquisição de tecnologia desses aviões para capacitar o Brasil no seu desenvolvimento”, diz Brandão. No entanto, Figueiredo discorda que a tecnologia será transferida totalmente. “Às vezes o cerceamento tecnológico é sutil. As empresas mostram como se faz, mas se não há o domínio das ferramentas de nada adianta a tecnologia”, explica.
Segundo o professor da UFF, o mesmo vale para os navios franceses, que poderiam correr o risco de não poderem operar corretamente. “O Brasil está comprando da França basicamente a tecnologia da construção do casco, mas o problema é o sistema de armas, é preciso dominá-lo uma vez que o abastecimento pode parar”.
O investimento no setor possibilita o desenvolvimento de tecnologia de alto grau, formação de mentes e vendas lucrativas de patentes. “Aqueles que apostaram na educação, base da ciência e tecnologia, formaram profissionais de alto nível e criaram tecnologias que influenciaram todo o sistema produtivo, como o microondas e internet”, destaca Figueiredo.

ABAIXO DA MÉDIA
Apesar dos esforços federais, o Brasil é o integrante do BRIC com o menor investimento em segurança nacional, de acordo com dados do instituto independente de pesquisa sueco Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI).
As informações da instituição, baseadas em fontes abertas e também em dados oficiais, apontam que o País gastou 28 bilhões de dólares em 2011 em despesas militares, contra 114,3 bilhões de China, 52,5 bilhões de Rússia e 34,8 de Índia. Em comparação com potências no setor, como EUA (687 bilhões) e França (61,2 bilhões), o Brasil fica ainda mais distante.
Além disso, outro fator que pode comprometer os planos de re-aparelhamento das Forças Armadas brasileiras é o corte no orçamento do Ministério da Defesa. Em 2011, o orçamento é de 11 bilhões de reais.
Mesmo com a queda da arrecadação, o País negocia a aquisição de tecnologia israelense para aviões não tripulados (Vants). As aeronaves, utilizadas em missões longas, perigosas e com risco de contaminação, trabalham com sistemas de controle externos que, teoricamente, poderiam ser invadidos e atacados por hackers.
Nas últimas semanas, sites oficiais do governo federal foram vítimas dessas invasões. “Os Vants podem voar autonomamente segundo programado em software e, desde que não sofram uma violação eletrônica, vão executar a programação”, explica Brandão.
Para evitar esse tipo de situação, o Exército ficou responsável na Estratégia Nacional de Defesa pela área cibernética – a Aeronáutica responde pela espacial e a Marinha, pela nuclear. “É preciso criar sistemas de defesa contra o terrorismo cibernético. Hoje o Brasil tem o necessário, mas não o suficiente”, diz Figueiredo.

AMBIÇÕES INTERNACIONAIS
De acordo com o doutor em Relações Internacionais, o reposicionamento da defesa nacional vislumbra, além de capacitar o Brasil para se defender de forças externas, o ingresso como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Todos os cinco integrantes fixos (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia) possuem armamentos nucleares e de destruição em massa. “Vai haver uma reformulação no Conselho e o escolhido a entrar no grupo vai precisar ter condições tecnológicas e não depender de favores”.
Caso o plano do governo seja adotado como previsto, Figueiredo acredita que o Brasil tem chances de conquistar um assento permanente no Conselho, mas no momento o País ainda não possui tais condições.
“Nos últimos dez anos sofremos transformações no campo econômico, mas não temos defesas eficazes. Já existem elementos de biotecnologia capazes de causar mortes em massa e precisamos nos defender disso também”.


Por: Gabriel Bonis, na ‘Carta Capital’.
Em: 12 de Julho de 2011.
Acesso em 12 de Julho, 2011.

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